sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Igrejas gourmet’s LTDA – um discurso inconveniente


“Melhor é ter espírito humilde entre os oprimidos do que partilhar despojos com os orgulhosos”.
Provérbios 16:19 (NVI)

Há no senso comum a percepção de que se um restaurante está cheio é porque a comida daquele estabelecimento é boa. Em certa medida esta lógica é coerente, comida boa tende a produzir publicidade positiva e, então, atrair novos clientes, fazendo com que haja muitas pessoas no recinto no horário das refeições, atraindo relativa visibilidade e relativa credibilidade. Para quem não conhece as opções de restaurante de uma determinada região, este parece ser um critério interessante e relativamente seguro. Esta é a lógica usual (pragmática) de quando se está num lugar desconhecido e é preciso escolher um local para se fazer refeições.

As pessoas, ao terem que escolher um restaurante, são atraídas não apenas pela qualidade da comida que supostamente fez com que aumentasse a quantidade de pessoas no recinto, mas também por outros fatores que em certa medida podem até ser destoantes à noção de qualidade, como: preço, convivência, hábito, proximidade, rotina de trabalho, entre outras possibilidades. Então, escolher um restaurante apenas pela quantidade de pessoas que frequenta o local pode não ser o melhor critério, mas há de se admitir que seja uma tática usual e por vezes parece ser assertiva.

Há quem escolha uma igreja para frequentar como se escolhe um restaurante para comer, ou seja, pela quantidade de pessoas que frequenta o local, sob a pretensa afirmação de que se tem muita gente, deve ser bom. Se para restaurantes esta máxima tem lá suas dúvidas, quanto mais se aplicarmos a mesma lógica para a igreja. Tristemente, é preciso arrazoar que muitos líderes eclesiásticos valem-se da quantidade de frequentadores para dar visibilidade e suposta credibilidade para o empreendimento religioso, este confundem abrir um restaurante com abrir uma igreja.

Num restaurante tem-se que atrair clientes, vender o produto e, então, conseguir lucratividade, porém é preciso recuperar a sanidade e entender que a igreja não tem clientes, não vende produtos e muito menos deveria gerar lucratividade (não quer dizer que não precise de dinheiro, são conceitos distintos). Na igreja há fraternidade, não clientes, a relação não se estabelece a partir de uma noção mercantilizada. Na igreja há Boas Novas, não produtos, a mensagem é a mesma desde os tempos bíblicos e esta é suficiente para produzir salvação para o pecador arrependido. Na igreja há partilha, não lucratividade, o dinheiro tem que ser usado para promover a justiça social, a equidade e a expansão do Reino. Por meio destas premissas, é notoriamente distinguível uma igreja de um restaurante.

Não se escolhe uma igreja como se escolhe um restaurante; não se frequenta uma igreja com as mesmas intenções de se frequentar um restaurante; não se espera da igreja o que se espera de um restaurante; não se abre uma igreja como se abre um restaurante; não se conduz uma igreja como se conduz um restaurante. Aos que querem a possibilidade de lucro, que abram um restaurante. Aos que acreditam que o marketing é a ferramenta mais importante, que abram um restaurante. Aos que querem atrair multidões para serem reconhecidos com suposto sucesso, que abram um restaurante. Enfim, que estes pastores, donos de restaurantes com faixadas de igrejas, parem de emporcalhar a fé evangélica tupiniquim e reconectem-se com a simplicidade da fé que não requer nada mais do que permanecer fiel até o fim.

A igreja brasileira não precisa de pastores gourmetizados, com sintomas de numerolatria aguda e nem de uma liderança caramelizada de empowerment. Não estamos em um master chef eclesiástico. Precisamos apenas de igrejas simples, pastores simples, membros simples, estrutura simples, louvor simples e pregação simples. Afinal, nosso mestre é apenas um Carpinteiro e nós apenas servos... Ele é o dono da seara, nós os trabalhadores... Ele é o Senhor da Igreja e nós apenas parte da Igreja. Portanto, não avalie uma igreja pela quantidade de pessoas que a frequentam, avalie uma igreja pela transformação de vida daqueles que a frequentam; avalie uma igreja não pelo fluxo de gente na hora do almoço (referendando a metáfora do restaurante), mas sim pela perseverança, continuidade, devoção, rendição e permanência dos que se juntam a mesa para uma ceia diária.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 19 de Agosto de 2016

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Lições do Maestro, um recomeço


“Chegai-vos a Deus, e Ele se chegará a vós outros...” - Tiago 4:8.

Em uma apresentação musical podemos notar que o maestro, em qualquer sinfonia, não toca nenhum instrumento. A função dele é reger todos com sua batuta. Do maestro não se escuta nenhum som durante a apresentação da orquestra. A atenção do maestro é voltada para aqueles que estão tocando a música. Os olhos dele permanecem fixos em cada movimento do conjunto. O cuidado do maestro é visível e o zelo... impressionante.

Nada é mais importante para o maestro do que aqueles que estão na orquestra. A platéia simplesmente ouve o som daqueles que caminharam, escutaram e se dedicaram ao maestro. O maestro não conversa com o público durante a apresentação, simplesmente é aplaudido pelos ouvintes ao final. Todavia, aqueles que compõem a orquestra conversaram com o maestro, apresentaram suas dificuldades de acertar as notas e se alegraram juntos quando acertaram o tom coletivamente. O maestro não poupa tempo com aqueles que caminham com ele. Este é um processo que requer tudo de todos envolvidos. 

Jesus é o Maestro supremo, regendo a história com destreza e perfeição. Convidando, a todo tempo, gente simples e imperfeita a aprender com Ele, integrando-os na orquestra suprema, ensinando as notas da Vida, do Amor e da Graça - som estes emanadas da sinfonia do Maestro. Contudo, temos que definir nossa posição: ou tocamos na orquestra, ou somos apenas mais um na platéia a observar o Maestro de costas. Podemos ter liberdade de aprender com o Maestro, ou meramente aplaudir o que Ele fez para com a orquestra.

Observe o número de cadeiras nos teatros para os espectadores, e posteriormente observe o número de cadeiras para os integrantes da orquestra. A conclusão é lógica e óbvia: para os espectadores há inúmeros lugares, pois este sempre foram as multidões, porém para a orquestra o número de lugares se limita aos integrantes, que escolheram dedicar suas vidas num concerto.

Quem se assenta na platéia não necessita ter conhecido o Maestro e não precisa ter ouvido Suas instruções. Para esses há vários lugares, pois não requer compromisso com o Maestro, são apenas espectadores. Entretanto, quem se assenta na orquestra tem intimidade, caminhada, história e liberdade com o Maestro. Ouve as Suas instruções, aprende com Ele, se alegra, chora... tem comunhão. Para estes, os lugares são de frente com o Maestro, face a face, e aguardam silenciosamente a regência dAquele que é o Maestro.

A orquestra não é um grupo fechado ou elitizado, no qual ninguém mais pode entrar e entoar na sinfonia do Maestro. Não!!! Definitivamente não. A maior alegria do Maestro é ver a orquestra crescendo em número e, conseqüentemente, esvaziando os assentos reservados aos meros espectadores, pois ao final, o sarau é grande e poucos são os instrumentistas.

Então... o que você prefere? Ficar de frente com o Maestro, ou ficar a assistir o concerto? Aprender com Aquele que é manso e humilde de coração, ou ver de longe a mais bela sinfonia já tocada? Prefere tocar a música do Reino e viver na coletividade da orquestra, ou prefere arriscar-se num solo de individualismo? ...Você sabe onde encontrar o Maestro? Então corra! Ele está lhe esperando para lhe ensinar a partitura!

A boa notícia sempre foi esta: tem lugar na orquestra! E o Maestro escolheu você para ser participante e não mais um mero espectador. Junte-se a Ele e se envolva no som do céu que quebra os grilhões e restaura  a alma.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 06 de Março de 2004

sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Os Dez Mandamentos" e o oportunismo gospel


"Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Em sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias que inventaram. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda".
2 Pedro 2:2,3 (NVI)

O Brasil, especialmente nestes últimos anos, vem sendo arrebatado por uma corrente de oportunismo evangelical. Na crista da onda, desde sempre (exagero necessário de um imediatista moderno), está a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), na figura excêntrica de seu líder Edir Macedo (fundador extremista da referida seita anti-cristã). Neste viés, como resultado de uma série de más intenções e maus resultados, a IURD vem emporcalhando e “emburrecendo” a Igreja Evangélica Brasileira. Para tanto, como que num apogeu de toda putrefação gospel, gravou recentemente a telenovela “Os Dez Mandamentos”, que recém se tornou em longa metragem. Então, o que pretendo me atrever é fazer alguns desconfortáveis comentários sobre a repercussão deste atual remake sweeded da IURD/Record, que foi uma tentativa fútil de ser como foi o grande sucesso da década 1950, The Ten Commandments (Os Dez Mandamentos), com Charlton Heston interpretando Moisés.

Reitero que a critica que se segue é sobre a repercussão do recém lançado “Os Dez Mandamentos”, produzido pela tendenciosa mídia da IURD, então, a critica que se segue não é necessariamente sobre o conteúdo do filme. Isto não quer dizer que a história narrada no filme esteja imune de observações, muito pelo contrário, são tantas desconstruções bíblicas que daria pra escrever inúmeros textos, livros, dissertações e teses, seria até oportuno a hipérbole: não caberia em todos os livros do mudo. Por esta razão, me centrarei apenas na repercussão do filme, por entender que é muita besteira num momento histórico só para que caibam nas condensadas páginas que se seguem.


A primeira falácia é achar que o filme “Os Dez Mandamentos” é uma reconstrução da história bíblica. Ledo engano. A semelhança do recém “Noé” (2014), do novíssimo “Êxodo” (2014) e do não tão novo “Príncipe do Egito” (1998), todos estão inseridos numa proposta de ficção cientifica supostamente, e duvidosamente, embasados nas histórias bíblicas. Repito, supostamente embasados, ou seja, os referidos filmes não tem a intenção de serem fidedignos aos relatos bíblicos, como os próprios produtores insistem em afirmar. Contudo, estranhamente, os crentes tupiniquins assistem tais películas como se estivessem revivendo os relatos bíblicos. Isto demostra, muito claramente, que os tais crentes não entendem nada de bíblia. Por isto, qualquer produção cinematográfica tem ares de veracidade para estes, se tornando vulneráveis as aberrações, heresias e doutrinas de demônios (cf. I Tm 4:1). Então, quando alguém diz assistir os “Os Dez Mandamentos” porque é um filme bíblico, este precisa é ler a bíblia, pois não compreendeu nada do relato bíblico.


O segundo engodo vem da essência de ser IURD, que se personifica no suposto sucesso nas vendas de ingresso para os “Os Dez Mandamentos”. A Record/IURD, epicentro de toda desconstrução cristã moderna, insiste que este foi o filme brasileiro com maior bilheteria, depois mudam um pouco as falas para não soar tão mentiroso (como se pudesse fugir de seu próprio caráter), dai dizem: ser o filme mais assistido no Brasil. Para o telespectador desapercebido pode até dar um tom de demonstração do poder de Deus, pois afinal um filme bíblico (supostamente) ter tamanho destaque só pode ser obra de Deus, só que não. A IURD tem distribuído gratuitamente os ingressos para assistirem a aberração “Os Dez Mandamentos”, isto eles não divulgam na mídia. E outra informação que eles não divulgam é que o suposto sucesso do filme é o sucesso da telenovela da Record sobre a concorrente, a rede Globo. Ou seja, tudo não passa de um jogo de manipulação, típico da IURD e do fanfarrão Edir Macedo, para atrair mais audiência.


A terceira dissimulação é achar que é melhor algo meio torto falar de Deus do que não falar de Deus. Lego engano. Nada é mais corrosivo a verdade do que a mentira com tons de verdade. E é sempre válido lembrar que uma vez ensinado/aprendido errado, para desconstruir tal compreensão errônea é muito mais difícil. Por isto, arrisco dizer que a película recente “Os Dez Mandamentos” não contribuiu para a Igreja Evangélica Brasileira, muito pelo contrário prejudicou, pois ensinou errado. Ainda há de se destacar que o símbolo imagem fica mais gravado na memória do que a leitura, então, é provável que os crentes, discípulos da IURD, ao se lembrarem da história de Moisés se lembrarão do filme, não do texto bíblico. Ou seja, a bíblica perde autoridade e referência, se tornando secundária. Por isto, não é tão incomum ouvir nos púlpitos os pregadores relatando a história de Moisés distante dos relatos bíblicos, pois estes fixaram na mente o filme, não a leitura.


A quarta e última consideração é uma insistência já dada em outros textos de minha autoria (“Um menino chamado Edir Macedo”; “Entre Babilônia, Duas Caras e as mesmas manipulações”; e, “Brasil, a Roma dos evangélicos”). A questão é muito simples: por que a Record/IURD, sendo notoriamente anti-cristã, insiste em produzir coisas do gênero gospel? A resposta é mais simples ainda: pois enganar crente sempre foi mais fácil que enganar quem não é crente. Ser crente nesta contemporaneidade, quase sempre, está atrelado à autoridade e submissão, especialmente nas igrejas de linha neopentecostal. Desta forma é fácil induzir votos eleitorais, forçar doações financeiras desmedidas, esfacelar a vida das pessoas em prol de uma instituição e etc. A IURD/Record sabe que o crente tupiniquim julga que ter fé significa ser obediente a lideranças humanas, então, nesta jihad gospel, o mais forte tem evidência e reverência dos demais. Eis porque a IURD quer ser tão grande, pois precisa se impor sobre os frágeis corações de pastores e igrejas de médio e pequeno porte.


Minhas considerações finais são bandeiras que ainda insisto em tremular: 1) O filme “Os Dez Mandamentos” não é, sob nenhum aspecto, um filme bíblico; 2) O filme “Os Dez Mandamentos” é apenas uma jogada de marketing da Record/IURD para enganar os crentes de plantão; 3) A IURD não é uma igreja evangélica, ela é uma seita herética anti-cristã, corrosiva ao cristianismo bíblico; 4) O Edir Macedo, na representação do personagem de pastor, é uma vergonha para a Igreja Evangélica Brasileira, pois manipula intencionalmente a fé das pessoas; 5) A razão de Deus deixar a IURD e o Edir Macedo ter suposto sucesso é porque estes funcionam como contra peso para medir o coração de outros pastores igualmente corruptos que querem ter sucesso a qualquer custo; e, 6) Que Deus tenha misericórdia do circo que virou a Igreja Evangélica Brasileira e nos dê esperança após o califado da IURD.


Fortalecido pela cruz de Cristo,

Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 05 de Abril de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

O amanhã é apenas uma invenção


“não se gabe do dia de amanhã, pois você não sabe o que este ou aquele dia poderá trazer”
Provérbios 27:1 (NVI)

O amanhã é uma invenção. Invenção de gente que se encanta com o folclore do controle existencial; invenção daqueles que querem simplificar a história em frações e periodicidade. É preciso lembrar que não nascemos com esta noção temporal. Enquanto crianças o amanhã era sempre o após dormir. Acordar, então, significava um novo dia, o presente. Dizer que amanhã ou dias depois iriamos fazer tal coisa, ou que daqui umas semanas seria uma data comemorativa, isto não fazia sentido, pois o que existe é apenas hoje agora, amanhã é apenas uma invenção de adultos.

O amanhã é a pretensão de gente que acredita que pode programar algo nesta vida. O amanhã é ininteligível, improvável, intocável. O amanhã, a bem da verdade, nunca existe, pois no amanhã será hoje. Por isto, o amanhã é uma invenção. É uma desassociação de nossa herança divina, eterna, que não se faz com conjugações no pretérito, presente e futuro. A noção de amanhã é uma desconstrução dos atributos comunicáveis de Deus com a humanidade. Fomos criados a partir da eternidade, nossa provisoriedade e moratória existencial é supérflua. Somos eterno, então, o amanhã não importa, é apenas uma invenção.

Para Tiago o amanhã não nos pertence, e lembra: “como é que sabem o que vai acontecer amanhã? A duração das suas vidas é tão incerta quanto à neblina do amanhecer; agora se vê, mas logo se esvai” (Tg. 4:14). Para Salomão o amanhã, se é que existe, pertence a Deus, por isto adverte: “podemos muito bem fazer planos para o futuro mas o resultado final é o Senhor que produz”. Para Jesus o amanhã é motivo de despreocupação, e aconselha: “portanto não fiquem preocupados com o dia de amanhã. Deus cuidará do dia de amanhã para vocês...”. Então, amanhã, ontem, daqui uns dias... pouco importa. Tudo isto é apenas invenção de gente que se esqueceu da eternidade que ainda pulsa em nossas veias.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 31 de Março de 2016